contos mágicos

Contos Mágicos

A desordem ordena (ou desordem ordenada?)

Só o caos movimenta. A desordem faz a ordem e a ordem paralisa a movimentação.

A fuga da chuva torrencial na madrugada aqueceu os pneus da minha bicicleta. Pedalando intensamente, esmerei meus cambitos torneados e ainda assim, minhas roupas pingavam. Eu só desejava um banho quente. Coloquei uma toalha verde nos ombros e no caminho para o chuveiro, encontrei um amigo que, insistente, pedia que eu abrisse as cartas de tarot para um assunto amoroso estagnado.

Foi ritual imagético. As cartas iam saindo como um arabesco árabe vai percorrendo os espaços do silêncio sem fim, contornando vazios do vácuo material, arabescos nababescos sem fileiras, subindo como videiras nas grades da semântica e dos verbos conjugados.

As cartas tinham vida dentro das suas imagens congeladas, e se moviam conforme a pulsão dos dedos do meu amigo. As lâminas foram jogadas numa mesa branca e sentado numa cadeira, ele me olhava com as cartas abertas, braços cruzados. Pedia com o olhar, misterioso e cálido, para eu interpretar, como quem testa e procura constatar cada passo, cada palavra, cada afirmação.

Mas eu me abstive. Não porque fosse incapaz de enfrentar o desafio, mas não tinha necessidade de oferecer diretriz ou aprovação. A aprovação vem do faltante dos inseguros, e nesse mundo imagético e fraco de certezas, há quem dá a vida por um canudo e um mérito que vale tanto quando um chiclets mascado no asfalto.

Fui em busca do meu banho.

Uma outra pessoa apareceu no meu caminho. Era uma amiga, que também queria que eu lesse as cartas. Ela estava braba comigo. Achava que eu havia revelado todos os segredos que ela compartilhava comigo e que eu havia contado dos seus casos amorosos, tão aventureiros pra ela, tão recalcados para mim. Havia uma subida de pedra e terra amarela que dava para uma parede de concreto branca e como só queria fugir de tudo aquilo, subi em direção à parede branca, minha visão não conseguia discernir ainda o que era aquela parede, só achava que ela poderia me livrar daquelas duas pestes sangue-sugas e tomar meu banho em paz.

Descobri o que era a parede quando vi as janelas grandes e o portal maior ainda. Era uma igreja. Uma atriz estava casando.

Uma multidão estava parada ali na frente, e todos os semblantes se encontravam calados, com muito pó de arroz e chapéus lilases. Era uma cerimônia diurna e primaveril. Entrei na igreja e vi que minha amiga seguia meus passos, sem falar nada e mais curiosa do que eu, ambas conhecíamos esta atriz e estávamos espantadas com o casório, afinal, essa atriz era feminista, e não conseguíamos imaginar com quem e como ela iria entrar na igreja. Entramos caladas, o silêncio era sepulcral, quase cortante. As pessoas com chapéus lilases e os homens de branco, flores bem bregas rosas e brancas espalhadas pela igreja. Tudo tinha um movimento lento, coral platinado no mar que inspira e expira oxigênio apenas com a pretensão de ser. Lento e lento, tudo tinha movimento breve, quase morto. Esperávamos a noiva como quem morre, mas aguenta.

A noiva entra. Eu e minha amiga estamos escondidas no fundo da igreja sem sermos notadas. Ela está vestida de chapéu coco, blaser branco, camisa branca, gravata borboleta, calça preta e um forjado bigode. Ela empurra duas mulheres velhas pra dentro da igreja, ambas de vestidos cor violeta e chapéu com flores roxas. Que bregas! A noiva tem uma arma de brinquedo, uma pistola de plástico e bate nas duas velhas, até elas caírem no chão e quebrar um dos vasos de decoração da igreja. Uma das velhas consegue escapar e se senta num dos bancos da igreja. A outra velha, a com o vestido mais roxo, que chega a enjoar – meia-calça roxa, nádegas roliças roxas no ar, meu Deus! – aconselha a noiva sobre o casamento e esta surra a velha com mais força, com xingamentos próprios para aquela roxidão toda.

Os convivas fazem caras e bocas blasês, faces esbranquiçadas com densas camadas de corretivos brancos, parecem bonecos de croqui. Alguém sussura no meu ouvido que aquela atriz está dramatizando o próprio casamento, e que ela é a noiva, ela é o noivo, tudo ao mesmo tempo. Outra pessoa sussura no ouvido da minha amiga e diz “não, não! Ela está casando mesmo, mas quis fazer uma peça dentro da própria cerimônia, este é o segundo dia de festa e o noivo deve aparecer amanhã, no terceiro dia”. “Estão todos mortos” diz outra voz que eu não consigo discernir de onde vem.

Tudo o que eu quero é tomar meu banho. Quero ir embora todo o tempo, mas ocupações vãs e conversas vazias me impedem de partir. É sempre assim no reino das sensações. Saio da igreja e desço o mesmo caminho de chão batido. A minha amiga me segue.

O meu amigo reaparece no meio do caminho. Ele construiu um tabuleiro de jogo no chão. O jogo é disposto em forma de trapézio, com seis estacas redondas de madeira maciça que lembram canos, cravados no chão. Ele quebra ovos de galinha e joga dentro dos canos de madeira. Eu olho para dentro dos canos. Cada um dos canos conseguem suportar no máximo três ovos, que são três energias, como um triângulo equilátero. A terra absorve os ovos como lhe apraz e deixa um, dois ou três ovos, se quiser. O jogo consiste em interpretar a quantidade de ovos que a terra absorveu ou deixou na superfície do solo. Conforme a disposição dos ovos, se dá um prognóstico ou agouro. Olhei para o meu amigo e vi que ele tinha desistido das previsões do tarot e se tornado um mago, construindo seu próprio método vaticínio. Me surpreendi e me orgulhei dele e do seu olhar místico, envolto por uma névoa negra e misteriosa. Ele segura um lenço negro e dança ao redor das estacas de madeira, olhar contornado com sombra preta, blusa azul escura feito Merlim das estrelas, me olhava como que esperando por uma reposta.

Aproximei meus olhos das estacas e vi uma delas com apenas um ovo, ou seja, a terra absorvera dois. Percebi que aquela estaca de madeira era como um microscópio secreto, que se compartilhava os segredos da terra. Era uma espécie de luneta canalizadora, um binóculos, uma lente ampliadora que eu enxergava o micro e o macrocosmos através de um cano e de um ovo espatifado no chão. Em segundos, tive uma epifania e dentro do meu ser nasceu uma interpretação daquele ovo mole. A gema amarela e viva eram reflexo das minhas pupilas negras, e a clara, eram a parte branca dos meus olhos. A madeira era a pálpebra do olho que cai sobre a própria pupila. Olho onda, olho reflexo, olho mágico, olho-ovo espelho. Tudo era reflexo da minha alma e eu podia interpretar a visão daquele ovo como eu quisesse, afinal, aquele ovo era o meu olho. O único olho, olho central no meio da testa.

Tirei meus olhos daquela estaca oca de madeira e disse para meu amigo “o ovo era uma concentração do todo, como uma energia que está para nascer e nascer com tudo, como um feto ou um embrião verdejante de feijão que dá um broto e vira uma árvore gigante. O feto da New Age, se é que ela existe, se é que ela vai nascer. Os primeiros hálitos, que se inicia algo como a raiz dos poderes do fogo, sem nenhuma concretização prática, um impulso indeterminado sem direção, sem concretude. Só tensão causada por entusiasmo e criatividade, disposição preparada para a ação.

Nesse momento havia terminado a solenidade do casamento e crianças se esparraramam e saltam para correr pela grama que cercava a igreja, vieram em direção a rua que estávamos parados. Eram dezenas de crianças japonesas com laços e fitas multicoloridas nas mãos, com rostos pintados, cheios de arabescos que começavam no queixo e terminavam na nuca. Todas, meninas e meninos, com cabelos raspados. Ela desceram correndo e gritando alegres pela rua e desapareceram.

Uma senhora japonesa veio até mim e me deu um medalhão com uma resina azul-escura, com um desenho de um cavalo-marinho dentro. Silêncio e pensamento vazio. Segui o meu caminho em outra frequencia e segui para tomar meu banho. Ouvi um som de berimbau de origem desconhecida.

Veio na minha memória aquela disposição de cartas do tarot e o olhar misterioso do meu amigo com o tabuleiro de estacas de madeira. Dois peruanos se aproximaram de mim e disseram que esse tempo eu estava ali, mas o tempo não tinha tempo e portanto eu estava ao mesmo tempo, em vários outros lugares, vivendo várias vidas passadas e futuras, simultaneamente. Portanto eu estava ali, andando ao som de um berimbau com minha amiga sempre perdida me seguindo, procurava um chuveiro pra tomar meu banho, mas sem uma ordem cronológica eu também poderia estar numa antiga Normândia ou numa futura ilha perdida pela poluição chamada São Paulo.

E quando eu percebi onde eu estava, já não tinha mais peruanos, nem o amigo mago, nem amiga perdida. Eetava nessa ilha chamada São Paulo, que se parecia com um autódromo automobilístico. Cercado por montanhas e montanhas de lixo e moscas. Havia carros que corriam tão rápido que desapareciam, feito insetos voadores, da minha visão.

Todos dizem que a era de Aquário veio para revolucionar, mas eu digo que não. A Era de Aquário veio pra destruir. A extinção de todas as espécies, e por último a espécie humana. Para dar lugar a outras novas espécies, o caos é imprescindível. Achava que esta voz era minha, mas não. Essa frase profética sobre a tal Nova Era, era de um rapaz negro que estava catando lixo. Eu e ele catávamos lixo, com mais umas duas poucas pessoas no meio de uma multidão de carros. O asfalto era de gel a base de água, como uma pasta de silicone e o pneu de uma espécie de escama feita de hidrogênio. Nesse autódromo eu e meu novo amigo negro colhíamos o lixo. Virei as costas e ele desapareceu. Na verdade, ele era eu.

Mas em outro tempo, a matéria não é nada comparada com a grandeza da consciência, e a consciência deste homem era universal, era dele e minha ao mesmo tempo. Éramos a mesma consciência e por isso, não precisávamos de conversas, nem de apresentações. Com ele havia mais umas duas pessoas, um latino e outro oriental.

Entrei na pista que passavam os carros para ver como eram as pessoas daquele suposto tempo futuro. E não havia ninguém dentro do carro. Era um robô negro. Sua pele tinha a mesma textura do volante que dirigia. Ele afirmava que era uma pessoa e dizia palavras bobas como oi e tudo bem, mas tudo o que ele dizia era programado, sem vida, sem espontaneidade, sem amor, sem compaixão e expressão.

Tinha uma espécie de botão na sua têmpora esquerda e sem hesitar apertei o botão. O robô continuou a falar como se eu não tivesse apertado o botão, não sentia absolutamente nada. Ele me contou que tinha uma casa, trabalhava em tal lugar, era formado em tal Universidade e tinha um filho, uma esposa e um cachorro, mas que passava a maior parte do tempo dentro daquele carro-varejeira.

E falava e falava frases programadas enquanto abria um compartimento na sua suposta cabeça. Eu me assustei quando vi que no lugar do cérebro daquele ser não havia nada, estava oco e vazio.

A voz daquele negro voltou à minha mente como se ele estivesse num outro lugar, mas falava comigo como se estivesse sussurrando no meu ouvido. Ele disse: “são os fracos que sobrevivem. Os fortes morrem apedrejados”.

Meu amigo jogou todos os ovos no meio daquele autódromo de asfalto branco, e a cor da clara aderiu-se à pista. Os ovos fritaram e explodiram.

Agora o jogo quiromântico dos ovos eram o passado, presente e futuro acoplados um no outro. Se o necessário for o supérfulo, a aparência não é realidade.

Era fálica em decadência. Idiocrassia. E assim, pensando nisso, acordei. Meu cérebro continua exercitando os grandes músculos do surrealismo.

Tenho saudades desse meu amigo mago, e da menina que me seguia até a Igreja.

Normalmente, quando vivo no presente, acho tudo sombrio e incerto. Mas depois que vivo o momento, não importa qual seja, sinto que fui agraciada com uma grande dádiva chamada presente. Mas agora é passado. Ovos quebrados e espatifados num asfalto quente e só resta memória, fragmentados e parciais. Meu amigo mago tem uma memória excelente, ele sabe de coisas que aconteceram há cindo ou seis anos como se fosse ontem e o admiro por isso. Acho que evitei, provavelmente na infância, ter uma memória tão fugaz pra fugir da dor dos óbitos, dor da ausência e da violência que passei nos meus difíceis primeiros anos de minha vida.

Meu talento é amontoar informações e superficialidades. Também gosto de amontoar sorrisos, corridas e idas à praia. Tento fugir para a praia sempre que possível. A mar terapia é uma das melhores que existem. Mas não sou dessas mulheres que ficam deitadas para bronzear. Gosto de correr, nadar, desgrenhar meu cabelo ao vento, fazer trilhas, subir as montanhas, ver até onde vai aquela pedra, fazer yoga de pernas pro ar e receber chuva de areia na face. Dizem que minha força viril vem dos meus antepassados vikings, mas eu acho mesmo é que eu gosto de ver os ovos espalhados no asfalto com muito calor, e vigor. Se a vida for passar, que passe intensa e cheia de aventuras e cores! Também amores para apimentar. E alguns desafios.

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