dois contos

Dois contos

Ai! Eu sou uma abóbada, abobáda abóbora a boba real dourada! Arlequim, alecrim, alegre, ar, Lê, ri. De quem? De mim.

Uma fase azul é uma fase fria que está para o auto-conhecimento assim como a dor está para os quadros de Frida. A dor é sempre a melhor inspiração para a arte, a solidão, a tela a ser preenchida. Entre entradas e saídas humanas, quero registrar algumas datas.

Conheci o Manoel na Capela Santa Maria no dia 17 de maio, quando a princípio era só um amigo de Pavanas e Penas alvas, com inspirações hercúleas.

Sentei no segundo piso para ficar admirando as imagens amarelas e azuis, sentir o cheiro de madeira forte do lugar. Escondida e pronta para a introspecção auditiva se misturar com todos os meus sentidos, típico de quem ama o lirismo e nele se perde horas a fio.

Atirei meu olhar contra o andar de baixo como quem metralha em dia de guerra para observar todos os semblantes, vista privilegiada, meia calça preta, pernas cruzadas. Sem ser notada por conta da diferença de altura, perambulei no mundo dos olhares, de par em par. Meu radar minucioso detectou almas tristes, sem graça nenhuma, apenas ansiosas, esperando pelo conserto. Um homem bem vestido, postura elegante, usava preto dos pés à cabeça. Pausa para observar esse homem. Olhar desconfiado mas permissivo, cabisbaixo sem ser melancólico, contemplativo, circunspecto, não minucioso, levemente apático. Pesado. Forte e cético.

Asas da intuição se abriram e num segundo, estava descendo as escadas da capela em direção ao primeiro piso, sem entender o porquê nem o que me levaria a responder um impulsivo ímpeto. Ele tinha um não sei o que de provocativo em toda a composição. O meu subconsciente leu aquela aura e percebeu no ar um salutar convite.

Me aproximei fingindo que acabava de entrar no salão e fui sentar ao lado daquele cavalheiro. Pupilas negras se dilataram ao me ver, me dando a impressão que seus olhos eram muito negros. Recebi um aceno de cabeça e ele me abriu passagem para sentar-me na poltrona ao seu lado. Segundos se passam e duas almas se identificam. Ele movia o corpo em gestos de admiração.

Sentados lado a lado, ouvindo Penalva –  que delícias musicais esconde as belezas do Paraná! –um cotovelo desastradamente tocou o meu pulso, tudo o que fiz foi engolir pesadamente minha saliva e soltar um suspiro profundo. Toques palpitantes. Recebo mais uma cotovelada, dessa vez, além do cotovelo, vejo se aproximar uma mão segurando um papel. Era um bilhete bem-humorado, cheio de perguntas. Queria saber o motivo que me levou à capela naquele final de tarde. Quis responder bonito, escrevi que foi o tédio aliado a minha peripatetia, uma vontade louca de andar e de escrever inspirações, de pensar solilóquios. Sem demoras, ele respondeu que iria sair de fininho do concerto mas que gostaria da minha companhia para tomar um café.

Pensando se aceitava ou não, procurei desembolar nos meus neurônios o motivo da minha atração por aquele homem. Seria o cheiro de rosas que escorria dos seus largos ombros? Seria o peso que saía de sua aura parecendo uma montanha rochosa? Montanhista que era, queria subir e desbravar essa rocha. Subitamente ele se levantou e não pude pensar em outra coisa, senão em segui-lo. Saímos da capela e um vento gelado brindou:  viva a iniciativa! Aahr-repios. Mãos frias pediram ajuda e encaminhei elas em direção ao bolso da jaqueta. Curitiba em julho sabe agredir e também agregar. Caminhando, chegamos na São Francisco. A voz pesada dele saiu pela primeira com um matiz de nuvens esbranquiçadas. Depois de apresentar-se, um sorriso. Dissequei com os olhos e ouvidos no homem a noite inteira. A alma dele combinava com aquela noite gélida e uivante. Tinha um peso nele que ia além de sua massa corpórea escondida por baixo da jaqueta. Era um peso de vida sofrida, de alma agitada, guerreira, mas incompreendida e cansada. Cinzenta. Sim, ele era um homem com o sofrimento do mundo impregnado nos ossos, alma de toneladas e ai meu Oxalá se ele caísse em cima de mim! Seria como o cair do piano em cima da mariposinha saltitante. Ele era sedutor, era viril, era homem de verdade, feito, completo, mas era pesado, tão pesado que senti um titubear desde a hora do concerto, quando as notas mais altas de Penalva passeavam pelos corredores. Seria um aviso? Esqueci de tudo, até as ditirâmbicas e proféticas canções.

Algumas semanas depois desse encontro musical, estava acolhendo-o feito pássaro debaixo das asas. Eu teria construído um ninho para acolher esse homem. Depois que ele tirou a camisa negra de herói negro e invencível, percebi que era apenas disfarce, e por trás da máscara de Batman, havia apenas um menino brincando de pipa. Dei colo a esse menino, ele gemeu, e senti um arrepio. Dentro desse gemido, havia uma dor que parecia ter perpassado centenas de anos e carregava consigo todos os séculos. Ele me contou que teve muitos dias ruins, que lutou por justiça, que praticou maldades, traiu, tinha ódio no coração, mas nada dizia, pois escondia a todos o seu real ser.

Por fora, sobrancelhas mediterrâneas, grossas e negras, rosto quadrado de militante romano, pele de jambo dourada com o calor dos trópicos, peso viril e discurso confiante. Por dentro, vi um homem doente e vazio, amedrontado para não cair numa cadeira de rodas, que somatizava sua masculinidade fingida até a medula dos ossos, a insegurança vacilante escondida num escudo de justiceiro. Papéis oscilantes desse ser mal-estar do teatro da existência. Um perdido solitário, velho infantado que não consegue chegar a tempo para discar pela emergência.

Queria abraçar e amar esse homem, e quando fiz, me doei. Senti suas dores num abraço apertado e quase chorei. Um coração frio dentro de um pulso fraco, que enrijeceu ao menor sinal de calor humano. Quer dizer, ele desejava o amor, mas degustava-o como uma conquista, um mérito, um objeto de desejo.

Eu era toda, jaca enorme e doce em sua boca, ele sentiu enjoo e eu compaixão. Queria interna-lo, curá-lo com o amor. Ele se sentia atraente com as chagas da dor. E negou.

É importante estar preparada para o pior. Mas uma ilusão está além da divisão dual de certo e errado, sanidade e dor, ela está ao lado do desejo, e este é resistente a toda e qualquer refutação. Se há paixão na história humana é porque a história humana é a história do anseio de uma ilusão. E se há história, há função paterna, função edípica do eu.

Depois desse encontro, perambulei de madrugada com a sensação de que ele estava em minha casa. Comi uma banana e voltei para a cama sem escovar os dentes. Será que vai dar cárie?  

Ah César, meu imperador romano! Meu Timeu, Apolo, Plínío, Zeus. Meu exército vermelho! Eu sou a sua Atena. Ou melhor, sua Esparta para te dar mais trabalho.

Esfregue a sua barba negra e grossa nas constelações das minhas sardas!

Enviei um SMS e ele me respondeu “como você está?”, formal. Eu? “Estou sem forma, sem fôrma. Deixemos essas linguiças linguísticas para os cozinheiros linguarudos que não tem pão pros seus fornos, nem línguas macias para trocar carícias como nós temos”, quis responder. É o quarto dia após a aparição deste César na minha pátria sentimental e ele já conquistou todas as minhas elipses.

Quero ser o roxo para exorcizar o velho Saturno que pesa de responsabilidades suas vértebras aflitas, quero encher de futilidades as paredes brancas e úmidas do seu apartamento. Com grandes pinceladas, sem quaisquer limites!

Perdi a fome da banana.

Na minha insossa jornada de inferneura, ou formalmente enfermeira, aprendi a ver as dores com o tato, como cego vê palavras nos nervos dos dedos. Por isso, meu tristonho César, Prometeu Procrastinado, vou te dar um trato que vai te render uns bons caldos!

“Afrodites! Mandem calda de maçã para Apolo, minhas servas!” A Imperatriz vai sanar o Imperador. Se vai amor ou se fica eu não sei, mas ao menos essa paixonite rende bobas inspirações.

Eu não vou deixar você sentar numa cadeira de rodas, antes, vestirei seus pés sedosos em sandálias trançadas, revigorarei sua aljava, mandarei afiar sua espada e mandarei meus alfaiates reais tecerem uma capa vermelha para você. Também te darei um escudo. Mas preste atenção. Não ouse se dirigir a mim vestida com ele. Carregue consigo o peso dos lírios e magnólias quando chegar à minha presença. Uma realeza nunca perde a majestade, pode tirar a coroa.

É como eu sempre digo: dai a Deus o que é de Deus, dai a mim todos os Césares!

Todas as músicas bregas de amor pululam na minha cabeça. Água benta exorciza cafonice?

“Ai eu adoro amar você…”

“Vamos pegar o primeiro avião com destino à felicidade, a felicidade…”

“Meu amor me tira da solidão… vem meu amor chega pra cá me dá a mão…”

Não sei mais o que fazer, já terminei com o segundo lápis de escrever, são quase três da manhã e acho que o sono só aparecerá às seis, ai ops! Vou engatar o terceiro lápis se meus cálculos sob influência da cafeína no cerebelo estiverem corretos. Letonga Spier, não tomarás baldes de café em vão! Quanto mais à noite que dá azia!

Veja! O lápis amarelinho que ganhei do Pequeno Príncipe, o da ponta que quebrou, está repleto de carinhas sorridentes, menininhos corados que parecem com você César! A sua figura tem mil formatos na minha memória, mas a única que consigo ver é a sombra do rastro que você deixou na minha precária história. E talvez eu nunca mais te veja…

Voa voa rouxinol. Abre asas passarinho.

Eu acho que gosto de gostar de você, mas amanhã pensarei sobre isso.

Mas só amanhã! Com licença tripulantes corujas que eu vou comer minha banana, bate coração!

Dia 23 de maio, num frio brutal, nos encontramos debaixo de chuva ao lado do Bondinho da XV e fomos assistir “Músicas das Guerras” na Reitoria. Esse foi o nosso segundo encontro.

Nos encontramos onze dias depois entre estudantes de cinema na tentativa frustrada de assistir um filme do Kubrick. No dia 3 de junho fomos à um lançamento de um livro, na Livrarias Curitiba. Eu detestei esse encontro e comecei a pensar em nunca mais vê-lo. Sofri, Quarto encontro. Nos dias que sucederam, sumiço e gelo. Solidão. Decidi enterrá-lo e nunca mais procurá-lo. Entrei de luto. Chorei poemas, me lamentei. Bebi um pouco de vinho para esquentar e antes de entrar numa peça no Novelas Curitibanas, dentro do banheiro, escrevi: “você está sumido. Porque não manda um contato extra-terráqueo? Vamos ser amigo e só, já está tudo bem. Afinal você não presta. Nem eu. Ahaahaha! Beijos escarlates”

Onze dias após o sumiço, ele me disse que teve dias de Vulcano, que foi revirado por dentro e por fora. Entranhas de corpo, alma e tudo. Ainda com o coração machucado, não respondi. Me propus a responder onze dias pra frente, para retribuir em justa medida. Pensei comigo que se fosse para ser, nos encontramos ao acaso, como ao acaso nos conhecemos. Três dias após a resposta vulcânica, encontrei com ele na rua. Seus gestos foram frios, olhares curiosos, seu sorriso de saudade. Estava acompanhada de um amigo, na esquina da praça de bolso do Ciclista, no dia do jogo do Brasil com o México. Esse foi nosso quinto e maltratado, ultrajante, encontro. Convidei-o para assistir o jogo e ele veio sem hesitar. Havia subido o Largo da Desordem quando ele apareceu. Ele estava tão pequeno e normal, minhas expectativas estavam latentes, naquele momento eu achava que ele havia morrido dentro de mim. Estava enganada. No meio do segundo tempo, fomos para outro lugar e ele sumiu. E como já não aguentava mais mandei um sms de despedida “vou te mandar uma tosca sinonímia que ruminei por esses dias adentro. Depois César, te deixarei partir. Como eu te disse hoje “faça o que tu queres pois é tudo da Lei. O amor é a Lei. O Amor sob Vontade.

Intenso desce

Denso

Mans não te esqueces de subir

Eu. Senti o que não deveria sentir

Enterrei (triste)

Levei flores (lembrança)

Andei de luto (por fome)

No vai e vem do ego só o raso importa (entendi)

Às vezes penso em você e desejo (pra que afinal? Não sei)

Quero passar adiante (esquecer)

Fingir”

No dia seguinte a minha mensagem, ele respondeu, se desculpando. Disse que bebeu todas, a bateria do celular havia acabado, mas queria me ver e conversar. Respondi que poderia ser e que ia ver uma peça no Novelas, se ele quisesse que fosse junto. Ele aceitou. Sexto encontro.

Manolo, Maneco, Manoel, Mano-ma, La mano que sacode minha cabeça e que não sai dos meus ossos….

Carta para Joaquim, o Pintudo

Um dia eu acordei e quis atravessar uma fronteira, seja qualquer ela que fosse.

Vi um menino dentro de mim, que corria e atravessava rios de risos sem medo, ele sorria para as aves lá longe. Era um brilho só, calor de ser, sedento por ancorar nos pés fixos do mundo, cabelos voando, reluzente, luzes do primeiro amanhecer. O coração desse menino estava vestido dentro da minha pele cansada do sol, seu pulso jovem trouxe uma vontade intensa de correr, atravessar abismos com um salto grande, subir uma montanha, nadar longas braçadas. Era como se eu tivesse morta por séculos a fio e acordasse com a energia toda, pura e imparcial. Absurda, absoluta. Líquida. Corrente forte entre as minhas artérias e veias.

Eu quis reinar no que nunca reinei, quis correr onde nunca corri. Quis deitar entre a relva. Parar o tempo num gracejo e sorrir.

Havia um evento no Facebook para fazer trilhas, mas até o último momento, eu não sabia se ia ou não. Era 7:30h da manhã de domingo, último horário para sair, eu pensei mais um pouco e depois disse “sim, porque não?”. Saí correndo sem comer direito, com pressa pelo caminho.

Escolhi dizer sim. Sim pro menino, sim pro cavalo selvagem que quer correr e nunca mais voltar. O involutivo evoluído e o sagitariano simples, robusto, arredio.

Sim, eu iria caminhar no Morro do Araçatuba.

Eu=´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´ **[corri a vida inteira para fugir da dor e entre os obstáculos na corrida encontrei o antídoto.]

Nesta caminhada galopante encontrei um remédio caseiro chamado Joaquim.

O encontro marcado era num posto de gasolina, o mesmo ponto dos ciclistas arretados que descem a serra do mar da Graciosa numa pedalada ventante de tirar o fôlego. Passei pelos ciclistas com ar de “eu sou rhyyyca!”. – Com licença cavalheiros, esse passeio eu já fiz. Sozinha diga-se de passagem. Dei mais uns passos, não conhecia ninguém. Onde está o pessoal da trilha? Olhei para todos os lados e não encontrei nenhum rosto conhecido. Ciclistas por todos os lados, bicicletas, carros. E os caminhantes do Araçatuba?

(Caminhantes do céu. Pensadores errantes. Eremitas. Silenciosos. Fugitivos.

Nomes impronunciáveis que a Terra clama e silencia. Jamais ousa pronunciar palavra, jamais pronuncia a errônea palavra adeus. Despedidas no campo da Existência são apenas quimeras de outras formas, nunca são partidas reais.

No campo do Ser, é a carcaça que muda, a roupa que impera, a forma, o arrepio, a percepção. Nunca a essência do real, que apesar de ser parcial, é sempre reta, é sempre real forma, o não numeral, o não adeus.

O Ser imperial, o inefável, o muito mais do que concreto, o todo dentro do nada. Corpo em adaptação material. Nos despedimos do ontem para descortinar o hoje como se ele fosse uma esperança para o estado de existência real e certo, ilusão que abre nossos olhos, percepção fugaz dos sentidos.)

Olhei para dentro do vidro da loja de conveniências e alguém acenou para mim. Era o guia. Entrei na loja com ar de alívio. Havia alguém ao lado do guia que me olhou. Com uma blusa de moletom cinza, as costas encurvadas, olhar cabisbaixo, disse “prazer, sou o Joaquim”.

Todos prontos para subir o morro.

Entramos juntos no carro, a carona do Amor estava ali e mal sabíamos. Ele estava com uma touca verde, uma das minhas cores preferidas. Reparei que sua barba era linda, ruiva. Sem pensar em nada, acariciei a barba como quem afaga um gatinho, e depois de alguns segundos, ele cruzou os braços, fechando as emoções contra o peito e me mostrou que era um homem que estava ali, e eu não havia notado ainda. Naquele momento, eu ainda era um menino que queria brincar, com todo o colorido que fosse, com todo o real que aparecesse em frente, com toda a beleza de quem vive em cores e gira a abóboda dos olhos para enxergar os céus.

No carro da carona até o Morro do Araçatuba, foi a entrada da partida, o canal aberto. A presença se estabeleceu. Por alguns segundos, dentro daquele carro, esqueci aquele menino que queria correr galopes e vencer o mundo.

Dores incuráveis de minha alma curtem com o tempo e viram um bom vinho, uma boa lembrança, uma boa despedida. Ou um poema.

Um dia eu estava nos braços do Joaquim doente de alma, com tantas saídas, com tantos tchaus, com tantos nãos. No mesmo dia estava em seus braços, com a alma lavada e muito satisfeita.

É preciso perder um amor pobre para ganhar um amor rico.

Nos braços de Joaquim, eu deixei partir todos os amores doentios e cinzas, aqueles que só ficaram no rastro da memória para dizer que não valeu. E amar Joaquim valeu tanto, tanto, tanto, que voltei para o seu abraço várias vezes.

Esperanças sopram recados que amar é urgentemente e preciso, mesmo que a dor da repetição do gemido pareça que vai se estender por ecos, ou por séculos.

Mas a dor acaba. A pobreza também. A insatisfação é facilmente substituída pela alegria, em grandes escalas, sem quaisquer limites.

A vida sem fronteiras na verdade é o amor que perpassa e destrói vícios feitos de pedras, de contenções, cercas elétricas, arames farpados, raivas acumuladas, presídios, internatos, bombas nucleares, arrepios de frio. A dor da existência é a dor da separação.

Vida sem fronteiras é a alma lavada depois da aceitação do Ser. Liberdade é redenção dentro do próprio corpo, corpo solto, corpo que quer mover-se, o auto religare, a peça que faltava para o encaixe do lado incorpóreo da Essência, este despertar do lado da não célula, a parte vazia do nosso corpo que só se liga com as partículas do Amor.

Dexxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx**!!

Subimos uns 500 metros de montanha e depois enormes costões de pedra. Rocha densa, rocha brava, rocha intercalada com poeira, rocha atropelada pelo vento. Chegamos no cume e havia uma rocha bruta, espaçosa, a qual eu me consagrei como sacrifício vivo.

Ofereci uma manga e um coco para Xangô, e a ele fui muito agradecida por ter subido. Entre meus devaneios ritualísticos, fui para a sombra dessa rocha, num cantinho acolhedor, um esconderijo. E lá encontrei novamente o antídoto para o sol de solidão, pois quem me acompanhou foi o homem de barba ruivinha, meu querido Joaquim.

Barba de Xangô, rocha, coco, risadas, olho no olho, sorrisos.

A descida é sempre sofrida. Não pela inclinação ou cansaço, mas pela falta de vontade de descer. Parece que o contato com a colina é tão impactante, como se o alto fosse um portal para o sagrado, um lugar acolhedor para aqueles que querem se lambuzar com a sabedoria do silêncio impávido da Terra. Céu claro, nuvens e sagrada geometria.

Pegamos uma outra carona e outras pessoas escutavam as piadas espalhafatosas entre eu e o meu novo amigo Joaquim. Estrada de chão, tarde caindo e nada melhor do que não programar o dia e ter tudo, sentir-se grato, satisfeito, como um brinde feito de uma taça entregue nas mãos da Deusa. Sim, Deus é uma Mulher. Meu querido Joaquim não deixava a conversa cair e quando parávamos de falar, era para prestigiar as belezas raras no caminho.

Ipês amarelos, amores, amoras, vacas, cavalos, cachoeirinhas, lagos com cascalhos, rios, correntezas, fumaça de ganja, Morretes, arrepios de frio, cervejas, sexo, sardas nos ombros, trilhas, várias e várias trilhas. Toquei mais uma vez na barba ruiva, e mais uma vez, e mais uma, êxtase infinitesimal por prestigiar toda e qualquer satisfação, com todos os sentidos.

Não sei onde e como isso irá acabar. Temo que seja na minha partida. Eu fujo do amor com o engano de achar que posso correr da dor. Não é possível viver triste por muitos dias. É incompatível com a vida. Também não me adapto em quatro paredes e temo a palavra chamada “casamento”. Fora esses grandes defeitos, o êxtase de amor come meus olhos, meus ossos, meus arrepios todos. Sinto a cura do amor em cada órgão e até perdi uns centímetros de barriga. Sinto falta da barba ruivinha e dos abraços cheios de coxas, braços, coração. Vida e corpo inteiro.

Eu estou envolvida, me deixei tecer pelas tecelãs amorosas, mas temo ser iludida. Se a despedida chegar, ficarei mais uns anos eremita, porque a solidão tem tamanho 37 e solado grosso quando eu ando solta pelo mundo.

O Joaquim me chama de bicho solto. Um cavalo bruto, que dá uns coices. Mas caminha e corre com longas e fortes espaçadas, com ele até onde for.

Meu segredo é que eu vou acompanhá-lo sempre, sem rédeas. Se eu beber água lá longe e subir outras montanhas, e assim, ele me deixará ir. Se caísse o sol, voltaria correndo, feliz, como cavalo que ele também é. Não, não somos donos um do outro, somos cavalos companheiros. Somos os donos do mundo, com milhas contadas com suor, milhas e milhas de histórias de amores, de risos, de comemoração. Comemorar a vida simplesmente porque vale ser vivida, entre cantos e cordéis, entre beijos e silêncios, entre braços abertos para uma cachoeira, ou braços apertados quando nevar.

Eu sou cigana e quero um cigano do meu lado. Eu sou errante, eu sou uma pedra que rola montanha abaixo.

E pra que ter a cobrança de ter, se eu já tenho, se eu já sou?

As portas continuam abertas. Dentro delas toca a canção Telegrama… “eu tava triste tristinho…” eu estava, mas eu não estou mais. Joaquim, o Pintudo, o mineirinho que trabalhou na roça, com seu charme e sardinhas, me deu algo de valor, insubstituível e impagável. O anelo do abraço, elo sincero, recíproco. Companhia, amizade. Sorrisos de olhos brilhantes. E uma alma grande durante o amor.

Alma grande na noite, depois da despedida. Que me faz não querer me despedir, mas eu fujo. E vou embora pra casa com uma vontade latente. E durante o dia a vontade cresce até não controlar mais, e de novo corro para a noite, e você disposto, vem com o peso do seu corpo para mim, e a gravidade se desfaz, se desfaz também as palavras, e corre mais beijos entre os corpos. A lua volta mesmo sem eu vê-la.

Joaquim canceriano, Joaquim lua, Joaquim minha flor da noite num formato de homem, alma de mulher exalando a testosterona nos pelos vermelhos, um homem sensível, homem do fogo, homem dos queijos e do cafezinho, homem da terra. Um homem que eu jamais gostaria de dizer palavra de consolo antes de um adeus. Mas eu vou dizer essas palavras, eu sei que vou dizer adeus.

O ciclo da água segue, o brilho de facas, a lágrima, o custo penoso de acordar, cansar, dormir e viver. Almas imperiosas bebem dessa fonte, cortam frutas com essas facas, fazem amor entre lágrimas, acordam, cansam, dormem e vivem ao som titubeante de uma canção.

Escrevi esta tonta poesia, numa madrugada em que meu irmão quase me sufocou com uma chave de braço. Eu estou cansada de apanhar, mas dessa vez não vou fugir. Você me disse que vai me ensinar a lutar capoeira ou jiu jitsu, e eu vou aprender.

Milênios de solidão depois de você partir e eu ainda tenho vidas para resgatar, multidões de alma calada, olhos fechados para não chorar. Eu cansei da solidão, cansei do vale de lágrimas, e por isso resolvi amar as montanhas mais altas e perigosas. Eu só vou para o alto, eu só vou subir acompanhada para quebrar o jejum de companhia.

Tantra, mel, delícias, braçadas no mar, afeto, noites cheias de luar. Malícia. Que rima, finalmente com polícia, que passou por aqui hoje e na saudosa noite de escritas peripatéticas e abstratas. Casa da complicada filha da Deusa chamada Leticia.

Lutar pela liberdade com todo o meu fôlego, unilateral e explícita. Eis minha missão de vida.

**letras impressas pelas patas da Nuit, minha gata.

Primeiros urros da primavera, e ela nasce, final de setembro de dois mil anos de existência, como se eu tivesse 16. Tudo é novidade, rebentos do Ser Terra, terráquea, terrena, ter.

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