Imago Sangrento I

“Tudo se desmorona, o centro não se sustenta, mera anarquia espalha-se pelo mundo”.

W.B. Yeats

A experiência com o tempo é entediante, não há futuro nem tempo, só espaço. Toda união com o gozo para voltar para o espaço público é válida, desde que não seja em horário comercial. 

Acordei às três da manhã e percebi que suava frio. O pulso cheio e o precórdio das bombadas cardíacas são os ruídos que quebram o silêncio sepulcral entre corredores e o concreto branco das paredes. Senti meus impulsos vivos e ardentes, como sarça seca que acaba de ser lançada na fogueira. As batidas me davam prazer e gradualmente crescia, como se houvesse uma vontade vital de agir, de desnudar meu braço e usar minha força, de sentir que havia sangue pulsando e nutrindo as paredes viscosas das minhas veias. Um golpe fatal, um gozo, um êxtase, um abrir de asa-deltas para o precipício da existência.

Embora a sensação fosse duvidosa, excitava-me saber que poderia me consumir se eu permitisse. Era a virilidade da juventude, em carne e pêlo.

O peso da perspectiva do mundo na minha capacidade de sobrevivência estava sob meus ombros. Agora eu era a aposta da minha juventude, o futuro perfeito. Era Alejandro Magno com sua espada, era Napoleão com sua bandeira fincada no chão. A possibilidade do infinito que os músculos do meu corpo carregavam eram mais densos do que obsidiana vulcânica, estava fundida em cada célula mitocondrial dos meus órgãos. O gérmen da espécie, o eu sou sem escrúpulos, sem qualquer limite.

O infinito que vejo em mim é o vazio da noite. Olho um homem nos olhos e se torna terrível, é a noite. A noite do mundo que avança na opacidade e anomia da vida. Como numa floresta de noite espessa, em que não enxerga-se nada senão o cascalho mais próximo do dedão do pé, sentia o meu corpo mover-se em direção ao poder do espírito.

Havia uma força sutil que crescia a partir dos meus ossos que me levava a agir. Uma necessidade grotesca pela húbis intumescente, a sensação de luta, de fazer voluptuosamente as vontades do instinto, o pathos jorrando sem medo do castigo.

A paixão visceral, imperfeita e crua domina minha razão.

Tive vontade de correr sem rumo pela rua vazia, pular até o sangue subir e corar a minha testa, cortar a pele com caco de telha e deixar o sangue escorrer.

Abri a janela, senti o frio percorrer primeiramente meu rádio, úmero e subir lentamente pelas vértebras que sustentam meu crânio. Fechei a janela, meus músculos estavam rijos, era doce a sensação que me dominava, pupilas dilatadas, sobrancelhas arqueadas frente a um novo sentimento e a cada pensamento sinistro que surgia, aumentava a vontade de agir.

O homem não é um animal que pensa, mas que goza. Eu desejava levar o prazer até as últimas consequencias, sentir o jorrar da existência, toda força vital dos meus órgãos acumulara-se durante os anos, e precisava sair, mais do que tudo.

O rastro de cólera cresce como pólvora e depois do fogo aceso, só resta contemplar o fogo consumir tudo que se emancipa pelos ares. A pulsão torna-se uma panela de pressão e depois explode.

Eu disse a mim mesmo: você pode correr milhas e milhas, gritar até ficar rouco, fugir de tudo e de todos, dormir profundamente mas nunca poderá esquecer que seu coração é bombeado por fel.

O que você fará com a sua ira?

O primeiro objeto usado foi um taco de madeira. A ira era tão grande que foi preciso apenas um golpe no rosto, entre as orelhas e o occipital direito.

O segundo foi uma faca. O couro e a pele foram resistentes, tive que canalizar toda a força que tinha para o meu braço, mas a medida em que o corpo imóvel entregava-se à lâmina afiada, diminui a força, a faca entrava suave como em manteiga derretida no corpo, sangue quente jorrava como as lavas vulcânicas no lençol branco.

O terceiro foi a aniquilação súbita e cadavérica, o rasgar das entranhas, o uso de todas as forças com os músculos das minhas mãos.

O cálice do gozo transborda, é o ápice da satisfação.

Arrasto os cadáveres para fora de casa e enfileiro-os de bruços no jardim. As poças de sangue dos três misturavam-se na calçada branca. A terra tem sede dos mortos, instantaneamente chupa e absorve o líquido vermelho.

Fumo um cigarro, me agacho em cócoras, percorro os olhos sob as ondas curvilíneas dos corpos. A primeira vítima tem o crânio partido e aberto em formato de estrela. Não havia para onde correr. O segundo, esfaqueado. O terceiro, meu predileto, era um espírito incompleto, figura amorfa e transfigurada, consequencia da ira e da força que matou os dois primeiros.

Senti um peso insuportável nas pálpebras, os músculos do meu braço que outrora estavam rígidos, haviam relaxado e estavam trêmulos de cansaço. Caí no sofá e desfaleci. Sonhei que meu corpo estava pegando fogo.

Incomodado com os raios de sol que entravam pela porta da sala, abri os olhos e percebi que estava aberta.

Fui ao jardim e vi gusanos brancos penetrando dentro dos olhos de um deles. Assustado, obedeci ao impulso súbito de ir até o canil soltar os dois cães, eles estavam famintos e foram correndo com a boca cheia de saliva até os corpos, obedecendo o faro.

Memória e espelho confundem e se dispersam como nuvens cinzas de fumaça. O futuro começa tão devagar e já se foi. É difícil admitir. Tremi e me debati convulsivamente. Ainda estava ali?

É preciso soltar a ira e encarnar uma bosta para mostrar que a sociedade e o cinismo burguês são ruins. A autodestruição é o cano escape da vida em cativeiro.

Fogo, violência, cigarro nos pulmões, pancadarias, câncer de próstata.

Quanto mais dói, mais sinto que estou vivo.

E ao trabalho, hoje, amanhã e depois.

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