Auto conhecimento

A Jornada do Herói


Abordar os mistérios maiores é uma aventura e o descortinar dos mitos trazem grandes aprendizados.


A Jornada do Herói é muito utilizada em roteiros de cinema, seriados e, também, dentro das empresas como ferramenta de motivação e organização de metas para executivos. Temos de exemplos os roteiros de Guerra nas Estrelas de George Lucas e dos filmes de herois da Marvel ou da DC.

A sequência de Arcanos Maiores é considerada aqui como a grande viagem do ser humano em busca da realização de si.

Vamos considerar cada uma das 22 cartas como um diferente estado de cons­ciência, desde a Suprema Potencialidade do Louco até a Plena Consciência ou Síntese Final do Universo. 

Tal consideração só poderá ser feita se colocarmos o Louco como a primeira carta da sequência. O Louco, carta número 0, vai enfrentar três séries, cada uma sete cartas. Cada carta é uma prova que o impele a se conhe­cer, a ser mais ele mesmo.

Quer embarcar profundamente nessa viagem arquetípica?

Venha comigo conhecer a Jornada do Heroi e da Heroína.

A Jornada do Arcano Zero ao 22

O Louco é a criança, pura, espontânea a inocente, totalmente potencial. Al­guns autores atribuem ao Louco a ideia de inconsciência. Nada mais falso. A criança sabe muito bem o que é bom e o que não é, seus instintos estão intactos.

Sua memória corporal engloba as lembranças de toda a evolução da espécie. Ela é potencialmente consciente. É óbvio que a criança desconhece o mundo tão complexo ao qual chegou, desconhece a mente dos adultos e suas neuroses, a violência contra os mais fracos, a falta de amor, as guerras.

Ela não sabe que em 1987 no mundo foram gastos 1,3 bilhões de dólares por minuto, em orçamentos militares. E que em cada um daqueles minutos, trinta crianças morriam de fome.

Realmente, a criança que acabou de encarnar nesta Escola Planetária não precisa saber nada disto para crescer. Para realizar‑se, ela precisa, fundamental­mente, de uma coisa só: amor. Ela é um ser perfeito e completo, que se desen­volve a partir de uma energia central, de uma semente original, de um átomo di­vino. Nada está faltando. 

A criança não precisa de escola, de universidade, de família para ser educada. A sabedoria está dentro dela, no ponto para se manifestar. Apenas precisa de Amor para afirmar‑se, para desenvolver suas potencialidades, para florescer.

Assim, a Criança‑Louco sorridente e com os olhos maravilhados frente ao desconhecido, livre de medos, preconceitos e bloqueios, cai no mundo disposta a viver a eternidade em cada momento. 

Neste ponto de absoluta potencialidade, o Louco começa a desenvolver uma primeira polaridade, começa a entrar em contato e a se expressar de duas maneiras fundamentais, que correspondem aos dois prin­cípios básicos que operam no universo: o Yang e o Ying. No Tarô, recebem o nomes de o Mago (Arcano I) e a Sacerdotisa (Arcano II).

A primeira expressão Yang ao nascer pode ser o choro ou o riso, se são res­peitados os ritmos da natureza: se é o nenê que nasce ou é o doutor fazendo mais um parto. Depois, o nenê Louco vai sugar os seios da mamãe, vai comunicar‑se, relacio­nar‑se, vai procurar coisas a descobrir, compreender e levar para a forma concreta os arroubos de sua prodigiosa imaginação.

Vai criar, transformar, encontrar seus li­mites e tentar ultrapassá‑los; enfim, vai sair de seu espaço interior para atuar no mundo exterior. Tudo isso é expressão do Mago, Arcano I.

A Sacerdotisa, Arcano II, está relacionada com as forças que levam a criança Louco a interiorizar‑se. São aqueles momentos em que a criança fica quietinha num canti­nho, tranquila e silenciosa, às vezes de dedo na boca, totalmente conectada com ela mesma, receptiva ao externo e ao interno, compreendendo, intuitivamente, os significados de tudo o que acontece.

Nesses momentos a criança Louco nos surpreende com uma expressão de serenidade e sabedoria, que só algumas pessoas conseguiram res­gatar.

Quando o nenê Louco manifesta‑se através dessas duas forças básicas, ele vai en­trando, gradualmente, em contato com o mundo da matéria, que é também o mundo das regras, dos limites e da moral. Quem coloca a criança em contato com esse mundo é, primeiro, a mãe e depois o pai: a Imperatriz e o Imperador, Arcanos III a IV respectivamente. 

Os pais são os seres que mais influenciam a vida de qual­quer um, tanto pelo que fazem como pelo que não fazem. São mais importantes para nosso desenvolvimento do que a escola, os irmãos, os amigos, a sociedade, o sistema econômico, a nacionalidade, a classe social, etc. Até o ponto de determinar, em alto grau, o futuro da criança, como confirma a sabedoria popular: “Tal pai, tal filho”. 

A pessoa pode fazer os maiores esforços para liberar‑se da programação pa­rental. Porém, é muito difícil acabar totalmente com ela, como afirma Eric Berne, baseado no Panchatantra:

Estas cinco coisas tereis de vossos pais, seis anos após sair do útero: A duração de vossos dias, vosso fardo, vossa riqueza, vossa instrução e vossa tumba”.

A Mãe Imperatriz é a primeira a dar forma e, portanto, limite a esse bebê Louco. Ela dá a possibilidade de nascer e, ao mesmo tempo, está assinando a sua sentença de morte, ou envelhecer.

A emoção da mãe na hora da fecundação, seja o prazer do orgasmo, seja o amor pelo parceiro, o medo de ficar grávida ou a rejeição ao macho, qualquer desses sentimentos será o pri­meiro tijolo do corpo emocional da criança.

Ainda durante a vida intra‑uterina, a mãe mexe intensamente com o filho, aceitando‑o ou rejeitando‑o, amando‑o ou odiando‑o.

A mãe pode escolher. Pode sentir‑se abençoada pelas Forças da Vida, que lhe confiaram a gestação de um Ser Perfeito e através do qual ela tem a possibili­dade de resgatar sua própria perfeição. Ou pode sentir sua gravidez como um cas­tigo, como algo terrível.

A criança vai saber muito bem até que ponto pode mudar sua vida, tendo ou não o amor da mãe. 

O que o bebê Louco mais precisa, especialmente em seus primeiros dois anos de vida, é de uma mãe amorosa e nutritiva. Infelizmente, para a humanidade e para a vida do planeta como um todo, é difícil encontrar mães e pais que estejam disponíveis para seus filhos; que sejam capazes de fazer mudanças em suas vidas para ajudar o desenvolvimento de suas crianças; capazes de abrir seus corações para o novo Ser. 

Tem ocorrido assim, porque neste mundo Ocidental, cristão e “civilizado”, a imensa maioria das mães sente‑se frustrada. Vivemos num sistema grosseiramente machista, que de to­dos os ângulos massacra a mulher.

Porém, constatamos que homens e mulheres, sem desconstruir velhos hábitos patriarcais e machistas estabelecidos na cultura, continuam transmitindo para os seus filhos o mesmo comportamento que eles receberam dos seus pais.

A mulher, respeitosa e tradicional, renuncia sua individualidade e liberdade, seu prazer e sexualidade, à realização de seus sonhos e, enfim, ao desenvolvimento de suas potencialidades, para se vender à aparente “segurança” que o macho dá.

Renun­cia a lutar por sua felicidade e dignidade, fazendo de sua renúncia e sofrimento, um mérito.

A mulher aceitou o contrato de sua degradação: disse sim para o amo e não para ela mesma. Isso acaba gerando tanta raiva que estrangula sua capacidade de amar e a deixa incapaz de sentir outra coisa que não seja raiva, ódio e desejo de vingança. E acaba se vingando nos filhos, transmite‑lhes sua frustração.

Se a raiva de todas as frustradas do mundo se juntasse, imediatamente o pla­neta explodiria, com mil vezes mais força do que todas as armas que os machos acumularam. Assim, a mulher não pode aceitar as manifestações da individualidade da criança Louco, nem pode tolerar suas iniciativas.

Suas expressões espontâneas, instinti­vas e livres são um insulto para ela, já que questionam sua própria escravidão. Disse a mãe: “Eu renuncio, me humilho e obedeço. Você tem que fazer a mesma coisa. Você não pode ser livre nem receber amor, assim como eu não sou livre nem me sinto amada”. 

A mãe fecha os olhos para o amor sem limites que a criança lhe dá, vira as costas ao que poderia ajudá‑la a melhorar sua própria autoestima. joga fora a chave de sua salvação, enquanto despreza os sentimentos de seu filhote.

O pai também já condicionado num sistema de masculinidade tóxica “homens não choram” ou “a criação dos filhos é obrigação da mulher” ou ainda “eu trabalho e você cuida da casa”, nem sempre consegue transmitir amor, mantém um distanciamento emocional que a criança Louco não entende e assim, cria um rígido sistema de normas e regras, ao invés de afeto e de acolhimento que ele realmente precisa.

A criança ama, seu coração está aberto, ela pede contato, atenção, carinho. Mas mamãe não tem tempo, tem outras prioridades, outras obrigações. A criança sente‑se rejeitada e abandonada e passa pela amarga experiência de conferir que pedir amor, expressar suas emoções, são coisas que a levam ao sofrimento. 

A criança Louco descobre que tomar iniciativas, agir espontaneamente é ruim. Quanto mais é ela mesma, mais é desaprovada, invalidada, criticada e sofre mais. A criança acaba acreditando que seu amor não vale nada, que por alguma insolência do destino ela não merece carinho nem atenção.

Seu Ser fica cada vez mais fraco, perde a con­fiança em seus sentimentos. Deixa de se guiar por suas emoções, de ser livre e espontânea. Perde o caminho de seu coração.

A expressão emocional e instintiva da criança fica corrompida pela mamãe e pelo papai. A criança, precisando mais do que nunca de amor, atenção e aprovação, começa a fazer qualquer coisa para conseguir. Então, começa a obedecer ordens absurdas, que vão contra sua própria natureza.

Esconde e disfarça suas emoções, se comporta falsamente e, já que a via direta lhe foi trancada, começa a tentar mani­pular os outros, atuando papéis, se comportando de maneira a satisfazer aos pais, que lhe dão as dicas: “Seja boazinha… se tu me amas tem que… come… faz isto e aquilo… que mamãe e papai vão ficar contente, meu anjo”.

A criança Louco, que sabia muito bem o que era o Amor (ela era, há pouco tempo atrás, puro amor tomando forma), acaba acreditando que amar é dar satisfações, que amar é se sacrificar, renunciar.

E a criança passa, também, a pedir satisfações, pede e pede, pede bobagens, já que não tem mais coragem de pedir diretamente o que realmente quer: amor, contato, apoio.

Com o tempo a criança vai‑se transformando em alguém que ela não é, que nunca foi, só traindo seu verdadeiro ser. No melhor dos casos, consegue migalhas de aprovação.

Enquanto os pais padronizam as emoções e a espontaneidade, a criança vai en­trando, cada vez mais intensamente; em contato com o pai, que programa, espe­cialmente, a mente de seu filho.

A mente que, neste ponto, já trabalha desligada das emoções e instintos originais. A mãe deixou o filho carente. Ele se vira, amoro­samente, para o pai, esperando ser preenchido e, na maioria dos casos, recebe uma boa dose de nada. 

O macho, que há séculos trancou seus sentimentos, quando não é totalmente omisso com seu filho, fala para ele sobre autoridade, disciplina, ordem, trabalho, dinheiro, sociedade, regras, utilidade, em como ser alguém, etc.

Quer seja com indicações específicas ou pelo próprio exemplo, ele deforma a mente da criança.

Ensina‑lhe, geralmente com métodos nada socráticos, a aceitar o inaceitável, a acreditar no inacreditável, a respeitar o irrespeitável, a ser razoável, servil e obe­diente, a ser competitivo, e endurecer‑se, a procurar o poder como uma compen­sação da falta de amor e liberdade.

Se a fêmea vendeu‑se ao macho, este vendeu‑se aos mais poderosos. Virou uma formiga mais ou menos importante, incapaz de questionar qualquer coisa so­bre si mesmo. Ficou estéril, covarde, rígido e babaca. Se tiver “sorte” e conseguiu ser um dos poderosos, de tanto amolar suas armas para vencer, hoje não é mais que uma carcaça vazia.

É um velho abutre insensível, distante e morto. Este é o exemplo que o macho passa para seu filho e que o filho engole sem mastigar, para ter a aprovação do pai. Este mostra o caminho “correto”, dá os objetivos práticos, e deixa a criança “pronta” para a vida.

Para uma vida de escravidão. O pai possibilita a existência dos exércitos e a destruição da vida, imagens do mundo moderno.

Acontece que a criança percebe muito bem o ódio que os pais destilam em cima dela, a raiva escondida atrás do “sai fora… não incomode… vai para seu quarto, você não dá conta, você não presta”.

O impacto é tão forte e doloroso que, para não sofrer ainda mais, a criança apaga suas próprias percepções e acre­dita nas desculpas que lhe dão seus pais: “E pelo teu bem… é preciso que você compreenda certas coisas… se você não aprende em casa, ninguém vai te aceitar lá fora,” etc, etc. 

Para não sofrer, para poder sobreviver psiquicamente, a criança de­forma a realidade, não dá mais valor ao que vê, à sua própria experiência, à sua própria verdade. E passa a acreditar, cada vez menos em si, e mais no que os pais falam, no que a TV mostra, no que as religiões ensinam.

Através do trabalho da Imperatriz (Arcano III) e do Imperador (Arcano IV), o Louco enfraquece seu Eu, a tal ponto que perde sua espontaneidade, fica com medo de tomar iniciativas, de expressar idéias.

Já não acredita nele mesmo, acha que não merece amor, nem nada de positivo. Perde seu entusiasmo, sua criatividade, tranca seus instintos. Ele fica carente, ansioso, falso e manipulador, cheio de traços que nada têm a ver com ele mesmo.

Vira um frustrado, um mendigo de amor, um monstro incapaz de entregar­-se, incapaz de amar. Ele não sabe que tudo o que teve que trancar continua traba­lhando dentro dele, manipulando‑o, influenciando sua vida.

Mas então o Louco cresce, sai de casa e vai encontrar o Hierofante ou O Papa, Arcano V.

O Hierofante são as doutrinas com que a sociedade dá o toque final à falsa personalidade que o louco foi adquirindo. O Hierofante é o poder Ideológico, os fundamentos filosóficos, morais, religiosos e até científicos, que ajudam a sustentar o Poder Econômico. O Hierofante abençoa os exércitos de jo­vens que o Imperador manda para a morte. 

O Hierofante, que um dia foi, no Oci­dente, o Vaticano, são hoje os meios de comunicação, a indústria que fabrica a pseudocultura, massificada, anticriativa e idiotizante, que arrasa com a sabedoria popular e impõe valores alheios, vazios, consumistas e idiotizantes. Valores especial­mente decadentes a partir de resquícios elementos morais judaico cristãos. 

O adolescente Louco, igualmente privados de seus referenciais internos, caem nas garras dos mercadores de sonhos. O Louco precisa de alguma coisa para “ser alguém”, para preencher seu vazio de identidade, mas só pode pegar o que está na gôndola no mercado ou a venda nas redes sociais. 

Assim, O Louco começam a consumir qualquer coisa que lhe oferecem, na tentativa de reconstruir sua própria imagem. Por outro lado, sua programação já foi feita e condicionada pelos seus pais. O adolescente Louco, pode aceitá­-los ou, sempre desconectado de si mesmo, pode procurar, numa tentativa de re­volta geralmente autodestrutiva, os opostos.

O ser vai ficando preso numa série de camadas superpostas, perfeitamente encaixadas umas nas outras.

Para encobrir essa terrível sensação de medo, fraqueza, mediocridade, frus­tração e desamor, o jovem Louco se veste de orgulho, de especial, de invencível, de superior.

O Louco já está pronto para ser um militar, um advogado, um polí­tico, um padre, um juiz, um marginal, um intelectual, um membro de tal ou qual time ou partido, um fulano de tal, um número, um rótulo.

Ficou civilizado, uma ovelha do rebanho dos sem vontade, sem emoções, sem critérios próprios, sem um corpo próprio, já que até sua estrutura corporal foi mudada.

No capítulo segundo do Tao Te King (o Livro sagrado do Taoísmo) indica:

O Ser e o Não‑Ser se en­gendram mutuamente.

Toda qualidade contém seu oposto, em maior ou menor grau, na medida em que intensificamos uma dessas qualidades, estamos criando as condições para que a outra cresça.

Quando algo se expande, o outro lado se fortalece, até que acontece a mudança. Então, a boa notícia é que o ponto de maior robotização é o início da libertação do Louco.

Em palavras do filósofo Nietzsche:

“É preciso ter o caos dentro de si para gerar uma estrela dançante.”

Na poesia do Tao Te King:

Todos os homens se esforçam para achar a felicidade. Caminham para seu próprio sacrifício como se assistissem a um banquete, e cheios de orgulho vivem inconscientemente como se estivessem nos jardins de uma varanda na primavera. “

Quando aceitamos a nossa ignorância, quando a mente se rende e diz: “desisto de ter uma explicação para tudo”,  estamos dando o primeiro passo para a verdadeira sabedoria.

Quanto mais escravos somos, menos energia temos disponível, já que a em­pregamos para bloquear‑nos. Assim, é menor o fluxo vital e também menor o pra­zer e a alegria de que somos capazes de desfrutar.

A escravidão é uma ameaça para as Forças da Vida, tanto para aquelas que operam dentro de cada um de nós, que são nossos instintos, quanto para as que trabalham a nível planetário e cósmico. 

Es­sas forças são nossas aliadas em nossa libertação. Quanto maior é o bloqueio, quanto maior é a confusão, maior é também nossa necessidade vital de achar uma saída e, portanto, a possibilidade de encontrá‑la será também maior.

Não nos es­queçamos que, perguntando aos sete sábios gregos sobre o que era o mais forte, a resposta foi: “a necessidade”.

Em outro nível, podemos dizer que quanto mais alienante é a cultura domi­nante, mais luminosas serão as faíscas de beleza e consciência, que atravessando as camadas sobrepostas podem atingir o Ser e ajudá‑lo a manter‑se vivo. 

Os poetas, músicos e artistas, com sua linguagem sutil, têm a capacidade de manter‑nos vivos, mexendo com nossas fibras mais sensíveis, favorecendo o contato interno e ajudando‑nos a sentir prazer. 

Uma dessas faíscas é a carta que o cacique Seattle escre­veu ao Presidente dos Estados Unidos da América, em 1854, quando este pretendia comprar o território de sua tribo, em troca de uma reserva:

“Como podereis vós comprar ou vender o céu, o calor, a terra? Se nós possuíssemos a frescura da água e a fragância do ar, de que maneira V. Exa  poderia comprá‑los?…

… Nosso Deus e vosso Deus é o mesmo e sua piedade é igual para o homem branco e o vermelho. Esta terra lhe é preciosa e dani­ficá‑la é acumular desprezo para seu criador”.

Grande é o poder da beleza. O poder da verdade também é grande, mas é preciso algo ainda mais explosivo para abrir alguma fenda na armadura sinistra da falsa personalidade. Se a programação foi feita a sangue e fogo, será necessário al­guma coisa que mexa com nosso sangue (nossas emoções) e nosso fogo (nossos ins­tintos). 

É preciso o poder da paixão, onde o amor e o tesão se unem. Na seqüência, o Louco encontra‑se com Os Amantes (Arcano VI). A paixão leva‑o a acreditar e a gostar dele mesmo, a ampliar os limites aos quais a programação o havia reduzido.

Apaixo­nado, ele acha coragem para lutar pelo que quer, se abre, tira a gravata ou o sutiã, é capaz de se entregar, embora parcialmente. Ele ama e se sente amado.

No momento em que vive sua paixão, em que está amando, o Louco pode ser total no aqui e agora. Sente que está sendo autêntico consigo mesmo, pode conhecer a feli­cidade e também pode transcender.

Ele percebe que não está somente amando alguém; às vezes, seu amor vai além desta pessoa. O Louco descobre‑se amando o cantar dos passarinhos, o pôr-­do‑sol, as ondas do mar, as crianças brincando, as flores e tudo o que o rodeia.

Por uns instantes, sente‑se unido em amor ao universo, sente esse êxtase e fica imensa­mente grato. 

O Louco tem um encontro real com ele mesmo. Sua energia vital se multiplica por mil e ele tem a intuição de que sua vida poderia ser bem diferente. Ele se per­gunta: será que este estado é algo que depende do relacionamento afetivo e sexual que estou vivendo? Ou é, simplesmente, a expressão de algo meu, que sempre es­teve aqui e que as situações me ajudam a resgatar?

Diante de si, um grande dilema: fazer desse momento a própria vida, cons­truir a vida na base de momentos assim ou continuar a rotina mecânica, escravi­zante, mesquinha, sem prazer nenhum.

Essa escolha ‑ continuo sendo um escravo ou luto para me libertar ‑ é algo muito perigoso para o sistema dominante, que só pode se manter se existirem escravos para o alimentar. Na verdade, o que é muito perigoso para o poder estabelecido é o Amor e o Tesão.

Por isso a sexualidade foi tão repri­mida por qualquer tipo de poder.

Os Amantes levam o Louco a uma opção fundamental: a escolha entre dois caminhos. Por um lado, a vida do desconhecido, do prazer, das mudanças, da es­pontaneidade, do amor, do amante.

Por outro, o caminho do conhecido, das frus­trações, das rotinas, do autocontrole, do medo, dos padrões que mamãe e papai ensinaram. 

Mudar significa abandonar um esquema de vida, toda uma série de restrições que, ao mesmo tempo, davam segurança e proteção. Mudar significa começar uma via­gem onde as metas não estão ainda muito claras. Para realizar essa viagem, o Louco sobe no O Carro, o Arcano VII.

Esta é sua primeira iniciação. Ele ainda não é capaz de realizar seus potenciais, nem de se expressar espontaneamente. Não sabe bem que direção to­mar, só quer tornar permanente um estado de plenitude e prazer que conheceu.

Como os cavaleiros do Rei Artur, o Louco sai à procura do Santo Graal, sem saber que na verdade, este mesmo Graal misterioso está dentro de si.

Para isso, porém, tem que deixar para trás os condicionamentos mais gros­seiros, tem que se desapegar das mordomias de Camelot.

Nesta hora, o Louco pode estar abandonando o lar paterno, a universidade ou o emprego, a cidade ou o país, para se lançar na aventura rumo ao desconhecido, embora carregue sua arma­dura de medos, bloqueios e mecanismos de defesa, enfim, seu ego.

O vislumbre da plenitude, da felicidade que o Louco enxerga através da paixão por outro ser humano, pode também ser atingido por outros caminhos, como a meditação, o encontro com um Mestre Iluminado, o uso ritualístico de uma droga ou uma mistura delas (Ayahuasca, as ervas sagradas, etc) ou qualquer experiência‑limite, como por exemplo passar pelo limiar da morte.

Todos eles, de uma maneira ou de outra, são uma expressão da energia do Carro, a nova descoberta. 

Na hora em que o Louco deixa para trás as prisões‑proteções mais grosseiras, as rotinas mais sufocantes, e começa a se jogar na vida, um ajustamento se faz neces­sário para continuar sua evolução, um ajustamento que só agora é possível, já que agora ele está desprotegido, mais disponível para o desconhecido.

Este ajustamento é o encontro com seu próprio Karma.

Desde o início de sua programação, o Louco começou a destruir a si mesmo e aos outros, especialmente se ele se tornou um homem poderoso. Agora, para atingir ní­veis superiores de consciência e prazer, vai ter que equilibrar sua balança kármica, vai ter que saldar suas contas.

No encontro com a carta do Ajustamento ou A Justiça, o Arcano VIII, o Louco limpa uma boa parte de seu passado e, assim, pode assinar a paz com ele mesmo e com o mundo. E continuar sua viagem de um novo ponto, mais equilibrado e fluído.

Aqui não existe escolha, a justiça atua inexoravelmente, pela necessidade de equilibrar o Universo. Para que não seja destruído, o insustentável deve ser remo­vido. É claro que os efeitos do Ajustamento não são, em princípio, nada agradáveis. 

O Louco vai sair muito mexido deste encontro, se não sair profundamente abalado. Ele assume, então, a vulnerabilidade que pretendia ocultar atrás de certas máscaras que o Karma arrasou. E percebe que não pode continuar seu caminho de auto‑li­bertação, enquanto não conhecer melhor a si mesmo. 

Nesta hora, o Louco começa a viver O Ermitão ou o Eremita, Arcano IX. Será a primeira interiorização do Louco, desde que iniciou a viagem no Carro. Ele volta a atenção para si mesmo e começa a se estudar.

Sua abordagem é fundamentalmente analítica, utiliza os níveis inferiores da mente para se conhecer, para esclarecer seus medos, bloqueios e padrões de comportamento, para pesquisar na infância as origens de toda a negatividade que inibe sua evolução, que o impede de ser feliz. 

Ele esclarece áreas de seu inconsciente, toma contato e assu­me suas vontades profundas, seus desejos interditados e “inconfessáveis”. Nesta jornada, ele começa a discernir entre aquilo que é dele mesmo e o que lhe foi em­butido.

Movido por essa nova consciência, o louco faz terapia, yoga ou tai‑chi, muda sua alimentação e ritmo de vida, deixa de autodestruir‑se, estuda seu mapa astrológico, coloca tarot, estuda seus biorritmos, conecta-se com a natureza, etc. Pouco a pouco vai centrando‑se. 

E chega a hora em que sua lâmpada se acende. O que sai de si mesmo pode servir, também, para os outros. Surge uma luz em seu caminho. Sua prática começa a ser nutritiva e vivificadora. O Louco, através do Eremita, resgata sua fertilidade.

Este é um ponto muito perigoso. Aqui, o Louco pode usar suas descobertas internas para transformar sua vida, ou deixar que o ego se apodere, transforme‑as em doutrinas e começe a vendê‑las.

Isto significaria um retrocesso no caminho, até o Hierofante novamente. Um Hierofante talvez mais alternativo e heterodoxo, porém sempre um fanático comerciante de receitas.

O Louco, mais centrado, mais consciente, sai de seu relativo isolamento para topar com o mundo, com a Roda da Fortuna (Arcano X). Ele pertenceu ao mundo, viveu nesse caos competitivo e agressivo, compulsor, degradado e degradante, que os tibetanos chamam de Roda do Samsara e os hindus chamam de Maia.

Esta Roda, na qual pegamos carona sem querer e sem compreender nada, vai sugando nossa energia e nosso discernimento, até o ponto de entregar-nos para ela nossos próprios filhos. 

É a roda dos sem‑von­tade, cada um atuando em função dos outros, a nível individual e a nível cultural também. O país vizinho aumentou o orçamento militar, aumentaremos o nosso.

Manipulando e sendo manipulado, cumprindo e dando ordens sem se aperceber de coisa alguma, sem existir ninguém que se responsabilize por seus próprios atos.

Neste reencontro, o Louco vê o mundo diferente, já não fica mais hipnoti­zado com as luzes coloridas de néon, com as bandeiras, não morde a isca.

Ele vê de fora a loucura destrutiva dos humanos, vê escravos escravizados mantendo no poder os escravos escravizadores. Essas e outras percepções significam uma reafir­mação de sua individualidade, de seu centro.

Ele pode viver no mundo sem ser es­cravo dele e, cada situação que o mundo lhe envia, recebe‑a como uma oportuni­dade para desenvolver sua expressão mais verdadeira e autêntica. 

Vivenciando a Roda da Fortuna, o Louco começa a ver quão maravilhoso e único ele é. Descobre-­se como um Ser bonito e gostoso, cheio de vida, potencialidades e merecimentos.

Enfrentando esse caos, ele valoriza mais sua própria harmonia, começa a se respeitar, a se considerar, a gostar de seu corpo, de seu jeito mais íntimo, de seu sexo, enfim, o Louco começa a se amar.

Dentro da Jornada fo Herói, o Louco está atravessando o estado de cons­ciência do Arcano XI A Força ou O Tesão. Tradicionalmente intitulado de “A Força”, foi rebatizado por Crowley como “O Tesão” (Vide Roberto Freire, em seu livro: “Sem tesão não há solução”).

Em uma integração do Ser, o Louco resgata seu entusiasmo, seu brilho, sua força, seu tesão por ele mesmo,  pela vida e sua alegria. Sem esse reconhecimento amoroso por si mesmo, sem essa primeira integração, sem esse: “Eu me amo, eu gosto de mim”, o Louco dificilmente poderia encarar as provas que tem à sua frente, seria incapaz de atingir o “Eu te amo, eu gosto de você”. 

O amor e o tesão que sente por si mesmo e pela vida trans­borda da taça de seu coração, motivando‑o a se integrar amorosamente no Uni­verso, do qual ele começa a se sentir parte integrante.

No Enforcado ou O Pendurado, Arcano XII, o próximo Arcano da sequência, o Louco pode se entregar de coração aberto à Existência, pode ser o doador, capaz de universalizar seus senti­mentos de amor e êxtase, e ver seus semelhantes como seus irmãos, iguais.

Ele transborda de amor por tudo e por todos, compreendendo-os sem julgamentos. Esse é o nível de consciência que alguns chamam de consciência crística, que Cristo alcançou e quis demonstrar, com palavras e ações.

Nos Amantes, o Louco conheceu o amor por alguém, que o levou a viver um estado de felicidade. Embora momentâneo, fez com que tomasse as decisões que o levaram a se libertar de uma parte de uma programação e a transformar sua vida.

Agora, de novo é o amor, com A maiúsculo. Desta vez, por si mesmo, permitirá que se entregue amorosamente ao mundo, criando assim as condições para atingir o ápice dessa transformação no próximo Arcano: A Morte (Arcano XIII).

É justamente no Amor que reside a maior força de transformação, a energia que faz evoluir o Universo, a sociedade, o homem. Daí surge a essência verdadeira e o profundo mandamento de Cristo: “Amai‑vos uns aos outros”: animais, fauna, flora. A falta de Amor determina a escravidão.

Sua presença nos liberta e, quando flui em abundância, conhecemos o êxtase. 

No Arcano XIII ou A Morte, o Louco vivencia a morte da sua programação robotizada, o papagaio repetidor de doutrinas. É a morte do escravo. Neste momento, sua armadura egoíca começa a se quebrar e, pelas fendas, surge a própria essência, o ser amoroso e livre que todos somos. O caminho de recuperação do ser está aberto!

O Louco, irradiando Amor, com o coração em brasa, tira a tampa da garrafa‑programa que o continha, libertando as primeiras borbulhas de sua fragrân­cia mais íntima.

Essa libertação, embora pareça repentina, é fruto de toda sua jornada até aqui, de um processo não isento de esforço e, muitas vezes, de dor, que começou nos Amantes e exigiu um confronto com a programação parental.

Nessa jornada, a Essência do Ser permeia sua manifestação. A Natureza mais autêntica do Louco está fluindo, tomando formas e expressões concretas e práticas. Esta é a fase de consciência que chamamos de Arte ou Temperança, o Arcano XIV.

Tudo aquilo que flui como uma expressão espontânea do ser é, sem dúvida, Arte. O caminhar transforma‑se numa dança inspirada, a palavra é um poema colorido, e o silêncio é meditação.

Cada gesto está im­pregnado da Divina beleza que a Essência possui. Este momento é a segunda ini­ciação do louco. Aqui ele já pode fazer, realizar, pois sua morada é o seu centro.

“Fazer” é o catalisador de qualquer mudança: fazendo é que se muda, espe­cialmente quando esse fazer tem a qualidade de não‑fazer, quando esse fazer vem de uma profunda calma interior, quando está isento de expectativas a respeito dos resultados, quando é uma resposta aos ciclos cósmicos. 

O Louco, transformado pelo amor e a “práxis”, continua o resgate de seu próprio Ser. Em primeiro lugar apare­cem seus instintos, representados pela carta do Diabo, o Arcano XV.

Neste ponto, a vitória do Louco é permitir que a sua instintividade se expresse espontaneamente, que floresça e volte a ser a raiz de sua força vital.

Os instintos foram, durante séculos e também agora de maneira mais sutil, negados, reprimidos, rodeados de medos e tabus, considerados negativos, fonte de dor e doenças, exilados nas mais profundas masmorras do inconsciente, para depois serem manipulados e vendidos pelo sistema. 

O resgate dos instintos libera tanta energia que permite a remoção de velhas prisões, das cascas, das couraças com que o Louco ainda procurava segurança. 

Ao chegar na Torre Arcano XVI, o Louco derruba falsas identificações, se sente com tanta energia que já não precisa se esconder atrás de fortalezas, prisões, tradições, de fardas ou de papeis. Não precisa ficar defendendo nada. O Louco sai, definitivamente, da fantasia, tira a máscara. 

“Torna-te aquilo que és”. Friedrich Nietzsche. Assim, sem fanfarra nenhuma, o louco pode brilhar como uma Estrela Arcano XVII, próximo Arcano.

Uma vez que se libertou das ataduras da Torre, ele pode sintonizar‑se com as energias cósmicas e utilizar as novas percepções para jogar fora um monte de cren­ças, de doutrinas, de cobranças e vícios e deixar sua mente totalmente limpa, pura, receptiva, in­tuitiva. 

Neste momento, o Louco transforma‑se em um agente de forças evolutivas, dos princípios transformadores do Cosmos.

Com a ajuda dessas forças e, em espe­cial, do Guia Espiritual, o Louco vai ter condições de enfrentar o lado mais sinistro de sua sombra, no encontro com A Lua, o Arcano XVIII.

Nessa fase, terá a oportunidade de resgatar, em profundidade, suas próprias emoções. Mas para isso deve enfrentar os piores medos e as ameaças mais horríveis que trancaram o seu coração: ele vai ter que revisitar seu passado e suas sombras, e vai reviver seu mundo infantil.

Vai lutar contra os mecanismos sinistros que apagam sua consciência e que pretendem escravizá‑lo. E contra tudo aquilo que impede a expressão mais verdadeira de suas emoções. 

Se o Louco conseguir encarar os monstros frente a frente, sem piscar, acreditando em si mesmo, em seu amor, com a força de seus instintos, os fantasmas uivantes da lua não conseguirão enfeitiçá‑lo.

O Louco vence e exorcizados, seus fantasmas serão apenas sombras inofensivas e irão virar poeira no caminho. 

Para chegar na Lua é necessário mergulhar no mais profundo das trevas do inconsciente. Só depois da noite, nasce o dia e o Louco atinge a luz: o Sol, o Arcano XIX. Seu próprio sol interno, sua chama divina, sua totalidade, seu Ser Espiritual. 

O Louco resplan­dece, pois tomou contato com a Eternidade, com sua Eternidade interna, com sua divindade. Finalmente, ele conseguiu retirar todos os véus que escondiam o Ser de luz que sempre foi, é e será.

Na próxima etapa,  o Aeon ou O Julgamento, o Arcano XX, o Louco vive a reintegração de suas partes: instintos, intelecto, emoções e espírito fundem‑se uns aos outros, confundem-se e dançam entre si, com leveza e sincronicidade.

Essa ope­ração significa tamanho avanço na consciência do Louco, que equivale a um renas­cimento. E a Nova Mulher e o Novo Homem que aqui aparece, completo e perfeito, livre de todas as prisões e dúvidas, e começa a viver uma Nova Era da sua própria existência.

No último Arcano, o Universo (Arcano XXI), o Louco culmina sua tarefa, realiza as poten­cialidades de seu Ser e consegue ajudar e inspirar as pessoas a conhecerem sua bela e transformadora história e vai até as últimas sínteses, conseqüências e concretizações.

Isto implica um passo a níveis superiores, equivale a uma transcendência ele sente-se suprido em si mesmo, “não preciso de nada e nem de ninguém”. 

O Louco atinge um novo estágio na espiral evolutiva. Então, ele celebra, livre e feliz, o êxtase da Dança da Vida. O Louco agora é o seu próprio Heroi e Heroína.

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